segunda-feira, 26 de outubro de 2009
PRIMEIRA PALAVRA
Ainda assim, há discussões sobre a grafia, qual acordo ortográfico português. Estará o ponto de exclamação a mais? Provavelmente sim. E o som emitido parece-se mais com "olháaaa...". Mas sobre o intuito, disso não existem dúvidas. "Olhá" para a mãe, para o pai, para os quadros do Carlos Gardel, Corto Maltese e gatinhos, "olhás" repetidos consecutivamente para obter resposta semelhante.
Veio em boa altura a aprendizagem. A ver se ela a consegue pôr em prática na recepção aos convidados da festa comemorativa do ano um. O pai ainda vai tentar ensinar em tempo útil outra palavrinha que pode dar jeito: "Adeus!"
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
BÉBÉ BIBLIOTECÁRIA
Passo a passo, os animais começam a ser reconhecidos. “Onde está o polvo, filha?” Às vezes aponta, outras vezes não. “Está ali”, ajudam os pais quando necessário. No outro dia, no livro da quinta, pareceu-me que ela reconheceu mais um. “Onde está o burrinho, filha?” E ela logo, tão linda, de dedo espetado a indicar o papá…
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
ANOITECER DE VERÃO OUTONAL
(UM CONTO EM QUATRO ACTOS)

(acto I)
Rua fora, os néons das lojas a contestar a luz dos candeeiros públicos, a caminho de casa com um frango assado no saco. No passeio à minha frente, uma avó e duas crianças. O miúdo, mais novo que a irmã, pergunta:
- Avó, em casa posso calçar os ténis novos?
O consentimento é quase inaudível mas a réplica da menina não.
- Não percebo porque é que arranjas sempre coisas novas para ele e para mim não.
- Porque TU já tens dois ténis! E eu só tenho um! – adianta-se o irmão.
A avó permanece calada. A irmã, sempre serena, aplaca o ciúme.
- São giros? – condescende a irmã.
- Buéda fixes!
- De que cor são?
- Às cores – responde ele.
- Que cores?
- São muitas!
- Mas quais?
- Não me lembro!
Estou em plena ultrapassagem ao trio da avó calada, da menina calma e do miúdo com ténis muita fixes dos quais já não se lembra. Após um breve silêncio, regressam as vozes.
- Azul?! – insiste a irmã.
- Já te disse que não me lembro!!!
Ultrapassei-os e começo a afastar-me.
- Verde?
- Não sejas chata! Já disse que não sei!
(acto II)
Deixo de ouvir. Dois quarteirões à frente, uma mãe empurra com as duas mãos um carrinho de criança na minha direcção. Não é a primeira vez que a encontro. Tem sempre um cigarro preso entre os dedos, a fumegar para onde o vento sopra. Às vezes é para cima da criança, invariavelmente calada. Cruzamo-nos ao estilo comboio-bala.
(acto III)
Mais à frente, um homem segura uma caixa junto ao carro. Junto à porta traseira, uma mãe instala a filha na cadeirinha interior.
- VÁ LÁ QUE JÁ SÃO SETE E MEIA! ENTRAAAA!
A menina inicia um choro contínuo. A mãe persegue na irritação. O pai segura a caixa. O choro soa como uma sirene de bombeiros que se ofusca lentamente à medida que me afasto e galgo o resto dos metros que faltam até casa. O frango ainda vai quente.
(acto IV)
A Maria acabara de comer. Recebe-me com um sorriso enorme. Quatro dentes brilham, dois em baixo, dois em cima. Deixa os pais comerem o frango enquanto explora o chão da cozinha atrás de uma bola. Bate com a cabeça num pé da mesa. E começa um choro que parece uma sirene de bombeiros. É resultado de sono, concluímos, falta da sempre necessária sesta que não fizera. Todos os truques de adormecer ou acalmar falham. A sirene não termina. Até uma mãe salvadora lembrar-se de cheirar uma fralda. Cheia e a fazer arder um rabinho assado. O pano desce. A peça de verão outonal terminou. Os críticos que lhe façam os julgamentos morais.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
REINO DO FUTEBOL

Há pais que mal nasce um filho se apressam a torná-lo sócio de um clube de futebol. Aqui em casa, nem que fosse pela divisão clubista parental, reina o espírito aberto na questão desportiva. Depois de uma jornada para as competições europeias, achei por bem mostrar à Maria as hipóteses existentes.
Antes de mais, há boas razões históricas para ela gostar de futebol. O bisavó paterno jogou na Académica. Foi médico do Sporting, tendo marcado presença na mítica final da Taça das Taças de 1963 (até temos uma faixa comemorativa emoldurada). O bisavó materno foi dirigente no Peniche e teceu umas redes para o Estádio da Luz. Já agora, o papá da Maria jogava à bola todos os dias (numa altura em que ainda se brincava na rua). Deliciei-me a ver o Brasil do mundial de 1982 e as reviengas impossíveis de Maradona em 1986. No Euro 2004 comovi-me com uma selecção que arregimentou um país inteiro. E em 2006 tive oportunidade de acompanhar um mundial a partir da Argentina e do Brasil.
Dito isto, também há excelentes razões para a Maria desprezar o futebol. Em Portugal, o futebol é um desporto tenebroso, onde medra a intriga e escasseia o jogo bonito. As excepções são raras e aleatórias. Preferiria que ela se interessasse pela dimensão humana e multirracial dos Jogos Olímpicos (a cerimónia de desfile de equipas e bandeiras emociona-me sempre), e das modalidades “amadoras” que por lá se encontram. Como não quero influenciá-la nas escolhas, aproveitei a muda da fralda e da roupa para esclarecer, em linguagem apropriada, como são o clube da mãe e do pai. O Sporting foi confuso. A Maria já sabe fazer o “Grrrrrrrrrrr” do leão, mas este Sporting não ruge; mia. O Benfica também não foi fácil. Há demasiados anos que a águia voa baixinho mais parecendo um pombo. Nisto, ela colocou uma expressão que consegui decifrar: “Então e o clube do dragão, papá?” Ai a ingenuidade destas crianças... “Ó filhota, então não vês que os dragões são invenções que só aparecem nos contos de fadas?”
terça-feira, 29 de setembro de 2009
CAÇA AO LEÃO
Grrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaauuuu. A Maria aprendeu como faz o leão. Ainda é um leãozinho, mas já é feroz. Podia ser o animal da cantilena que utilizamos como estratagema para as refeições mais complicadas. Novamente um legado da tia Tita. Funciona melhor com alguém que acompanha a música com gestos. O palhaço de serviço, portanto.
Vou à caça do leão, vou à caça do leão [corpo a balançar a fingir marcha]
Caçarei o maior, caçarei o maior! [punho cerrado em sinal de alguma soberba]
Não tenho medo, não tenho medo! [voz fininha e dedo a oscilar num vai e vem de não]
Ah! O que é isto?! Ah! O que é isto? [mão estendida por cima dos olhos, a avistar algo longínquo, depois mãos nas ancas em pose de interrogação]
É uma árvore! Uma graaaaaaaaaaaaaande árvore! [braços a fazer um círculo graaande]
Vou trepar! Tchck! Tchck! Tchck! Tchck! [gestos a fingir que trepamos]
A história repete-se com um rio, uma casa, uma gruta e seja lá o que for necessário até acabar a comida no prato. Depois finaliza-se substituindo a parte do “É uma…” por esta:
Tem dois olhos… Tem duas orelhas… Tem um nariz… Tem uma juba?!... Tem uma boca!?... Tem uma língua!!?... Tem dentes!!!?!?... AI, É UM LEÃO!! VOU FUGIR, VOU FUGIR!!!
Quando é o pai a fazer de mimo, ponho-me a correr quase sem sair do mesmo sítio enquanto grito (com a voz fininha) o “vou fugiiiir”. A Maria gosta que esta parte tenha bis. E com o tempo aprendeu a acompanhar com o abanar das mãos a parte do “não tenho medo” e com o braço estendido a parte do “uma graaaaaaaaaaande…”.
O próximo passo, agora que já aprendeu a rugir como um leão, deve ser ir atrás do pai medricas para devorá-lo. Aiiii, vou fugir, vou fugir!!!
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
GATINHAR MASCARADO
Eu cá acho que ela gosta de se içar. De ir devagarinho, de crescer passo a passo. De ser bebé. Desculpem mas tenho de acabar este post aqui. Ela está ali a içar-se ao pé da estante dos livros para tentar apanhar o livro “A Maravilhosa História da Arte da Imagem” e os dois volumes de “A Evolução Estética do Cinema”. Eu não dizia que ela gosta de ser bebé?!
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
CANTILENA DO… BANHO TOMADO

Sem que se saiba bem como ou quando, institui-se que o término do banho da Maria e respectivo transporte da banheira até ao trocador é acompanhado por uma cantilena que ajuda o papá a esquecer-se do aumento gradual do peso que carrega.
Arre burrinho p’rá Azeitão
Carregadinho de feijão
Que os outros já lá estão
Com a sua carga no… chãaaaaaaaaaaaaoooo!
O ritmo da música por vezes leva variações próprias do momento, tanto podendo a cantilena ser entoada em coro alentejano como em hip hop. Mas a letra cantada pelo transportador, legado da avó maternal, é diferente da versão conhecida pela mãe. Versa assim a moda penichense:
Arre burrinho que vais para a feira
Carregadinho de madeira
Levas a canga e o arado
E a Maria com o cú cagado.
Logo à primeira audição, o lápis azul do pai actuou e censurou o verso final. Simplesmente não é higiénico. Nem verdade. A criança acabou de tomar banho, credo! Após conversações, negociatas e concílios, inventou-se uma rima final alternativa: “Levas a canga e o arado / E a Maria com o banho tomado!”. Ah, digam lá se esta limpeza etnográfica não ficou tão bonita!
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
QUANDO O DESPERTADOR TOCA

Estar de serviço à Maria implica, ao contrário do que poderia pensar, acordar com despertador. Ou é ela que me acorda (tem sido raro), ou é a Radar. Escapo-me para a cozinha sempre a tempo de evitar ouvir o tenebroso jingle da “K7 de Verão” do Zé Pedro. Aqueço uma chávena de café enquanto meço a água do biberão matinal. Sorvo a bebida negra vagarosamente à espera do efeito pretendido. O apito do aquecedor de biberões encarrega-se de terminar o processo do despertar. Preparo o leite e rumo ao quarto. Ajeito as almofadas, levanto um pouco do estore, coloco o biberão a postos.
Ultimamente a Maria tem um acordar VIP. Entro no quarto obscurecido. Geralmente ela já está de olhos abertos. Sorri em resposta ao “Bom dia Maria! Olá filha! Bom dia alegria!”. E logo aqui não me reconheço, mesmo sob efeito do café. Diacho, mas eu não era um tipo noctívago, com péssimo acordar matinal? O quê? Alguém me está a dizer que… ah, sim? Pelos vistos, afinal continuo a ser uma bestinha para os restantes seres humanos. Regressemos por isso à sortuda Maria que já está a apreciar o ilusionismo do pai, um truque baixíssimo para subir na consideração dela (“Vamos fazer magia? O papá vai fazer luz!”, enquanto abro o estore).
Braços estendidos, bebé levantado, saudamos o quadro dos gatinhos antes de ir para o quarto de aleitamento. Diz-se bom dia ao Senhor Gardel (o Carlos) da parede antes de posicionarmo-nos na cama. A Maria nem tem tempo de refilar com fome. Vuoshhhhhh!!! Biberão acoplado em posição de esvaziamento. Quando o nariz não está entupido, é empreitada de um fôlego só. Após a sucção, esperamos pelo arroto acompanhados pelas ondas radiofónicas. Às vezes balançamos o corpo e agitamos os braços. Contamos os minutos preciosos em que podemos ficar neste estado de tudo e de nada, antes de regressarmos ao resto das tarefas matinais. O Senhor Gardel torce o nariz aos sons emitidos pelo rádio-despertador. Faço-lhe a vontade e silencio a música. Lá fora o sol (ainda) chama por nós.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
LAÇOS DE TERNURA
Mesmo com tantas partidas do destino, a bisavó ainda demonstra uma capacidade estóica de avançar no tempo da vida. E uma coragem ímpar em conseguir sorrir. Por isso, apesar da farfalheira no interior da bebé e do vento frio no exterior da casa, arriscámos a saída. Aparecemos à hora do jantar com a intenção de a Maria proporcionar, quiçá, mais alguns sorrisos. E lá esteve ela, sentada ao colo da avó. Fez música com duas colheres, inspeccionou uma caixa de chocolates (fechadinha, bem fechadinha), alegrou-se e alegrou. Nem um segundo de choro. Quase não acreditávamos. Nada de lamentos sobre estar sentada, ainda por cima num colo inabitual.
A avó sorriu. Muito. Mesmo sem ver, estava contente por sentir a Maria, por não ouvir lágrimas e sim um palrar, por ser informada de que a bisneta estava sorridente. A velhota falou com a bisneta com “voz de telefone”, assim mais fininha para “a bebé perceber”. Mas os mais novos entoaram alto, sem timbres ténues, a letra dos Parabéns a você. A Maria não cantou, mas gostou do cerimonial.
A avó disse e repetiu que não podia ter tido melhor prenda. Sei bem que havia outras prendas que ela gostaria mais de ter. No entanto, há desejos que um neto não pode realizar. Restou-me proporcionar, com o crucial apoio da AV, o contacto com a bisnetinha. E ver que durante uma escassa vintena de minutos, uma criança ao colo gerou felicidade pura, daquela que não se compra. Dá-se e recebe-se.
A empreitada cumpriu-se com sucesso. Total. O mérito cabe à Maria. Um dia, quando a compreensão aparecer de forma madura, o pai vai agradecer-lhe pela música de uma noite de final de Verão. Para que entenda a importância da preciosa dádiva que deu à bisavó. E por demonstrar, mais uma vez, a grandiosidade das coisas simples. Como uma bisavó cega maravilhada com uma bebé ao colo.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
TRÊS NOITADAS
De tarde, na consulta rotineira no centro de saúde, a Maria tinha sido exemplar para médica ver. Nem uma choraminguice. Apenas uma grande curiosidade sobre aquele instrumento pendurado ao pescoço. O estetoscópio foi peremptório: aerossóis três vezes ao dia, cá vamos nós outra vez (já lá estávamos, mas agora é com mais convicção). Parafraseando a Sofia, “a Maria está a crescer”. E bem, apesar da tosse.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
PAI-SACO

No passado domingo estava a brincar com a Maria de pai-parapeito. Estiquei o braço para ela se agarrar com força e levantar-se. Devidamente içada, fez logo questão de mostrar que era altura de passarmos para a actividade seguinte. Queria que eu fizesse de pai-saco. Saco de pancada.De repente, a minha coxa é um pequeno tambor em que ela dá palmadas. O meu peito é uma selva de pelos daninhos que ela resolve arrancar (e a mãe esfrega as mãos de contente). As minhas orelhas, alternadamente, são alvo de inspecção com dedo em riste a escarafunchar o tímpano. O meu nariz (grandote) emite o som de campainha quando levemente tocado e logo a seguir de mugido doloroso quando apertado. Os meus braços-parapeito são arranhados como se estivesse a brincar com um gato assanhado. Para contrastar a dolorosa actividade física, mantivemos uma conversa em que nos entendemos às mil maravilhas.
- Filha, tem cuidado!
- Hrummmmm!
- Maria, isso magoa o pai!
- Iiiiiioooooooohhhh!
- Auuuuuuuuuuuuu!
- Iiiiiiiiiiieeeeeeeeeehhh!
- Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
- Eeeeeeeeeaaaaaaaahhhhh!
Sempre ouvi dizer que ser pai implica sacrifícios, mas não era bem isto que eu tinha em mente... No próximo fim-de-semana, felizmente, a coisa vai mudar. Já comprei uns brinquedos novos para ver se ela perde o interesse pelo pai-saco-de-pancada. E tão lindos que o chicotinho preto e as algeminhas prateadas são!
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
S.O.S. AEROSSOL

Após quase dois meses, já me tinha esquecido do que é acordar de madrugada com a Maria a tossir e com o nariz entupido. É a factura a pagar do regresso ao infantário. Estremunhado, iniciei juntamente com a AV o processo de montar a máquina, colocar a Maria no carrinho e enviar-lhe fumo para a cara. Fez uma expressão que parecia de reconhecimento perante a primeira fumaça. Disse umas frases, do mesmo estilo que costuma dizer quando lhe ponho à frente a ursinha Dada, ou o urso branco, ou o sapo verde (este é outro diferente do sapo Luigi), para ela relatar o dia passado antes de adormecer.
Nesses momentos, a expressão facial da Maria corporiza o sentimento da alegria. Pura e sincera. Nas últimas semanas, entre muitas outras coisas, este tem sido o momento que mais me satisfaz. Primeiro, aqueles segundos eternizados em que ela observa quieta o boneco que lhe mostro à distância enquanto digo "Já viste quem está aqui?". E depois a explosão num êxtase: estende os braços, rasga um sorriso profundo e acolhe o peluche quase com uma cantoria.
Ontem, apesar de serem cinco da madrugada, a Maria fez a mesma expressão perante os aerossóis. Depois brincou com os jactos de fumo enquanto tossia volta e meia. Acabada a terapêutica, deitei-me no sofá enquanto embalava o carrinho. Liguei a televisão e coloquei baixinho o canal de música clássica. Ela abraçou-se à fronha, colocou o polegar na boca e eu pousei os óculos em cima do pufe. Acordámos os dois, manhã feita, ao agradável som da voz da AV.
Será heresia afirmar que já tinha saudades dos aerossóis? Agora a ver se não abusamos, filhota, que da última vez a "brincadeira" envolveu três sessões diárias. Temos de resistir às dependências, não é?
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
DENTIÇÃO DE CROCODILO

O bebé está com febre? Oh, isso é dentes. O bebé está a esfregar o ouvido? Dentes, é dentes! O bebé está repousado e alimentado e mesmo assim continua a chorar? Dentinhos, vem aí um dentinho. O bebé está rezingão? É a moinha dos dentes. O bebé está vermelho? É um dente a romper! O bebé está… É dentes, já sei!!!!
Os dentes da Maria começaram a “aparecer” tinha ela uns três meses. Todas as semanas nos anunciavam que vinha aí um dente. Dedo experiente a apalpar a gengiva e veredicto taxativo: “Está mesmo mesmo a nascer! Mais um ou dois dias!” Passava uma semana e nada. Mas nós já sabíamos que todos os incómodos entretanto ocorridos eram originários naquele dente que está quase a romper mas que não há meio de se despachar. E assim se passaram os meses, com os malandros sempre escondidos ali à porta, manhosos, mas a gente já vos topou, não pensem que nos enganam, não senhor.
Aos oito meses, o dente que tinha sido “avistado” aos três meses e causado tantos estragos, finalmente mostrou a cara. Um risquinho branco a sobressair numa gengiva avermelhada. Agora, partilha o salão bocal com um vizinho, instalado mesmo ao lado dele. E quando surge uma nova moinha, ou febre, ou má disposição, a que se deve? Ora, então não se vê que a culpa é dos outros 62 dentinhos cujo nascimento já foi anteriormente prognosticado? Teimosos, hein!?! Assim, nunca mais a Maria tem a dentição de crocodilo completa!
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
REGRESSO CHUVOSO
A Maria demorou tempo a olhar e assimilar as novidades. Na passagem de testemunho, fitou longamente a auxiliar de que tanto gosta. Nem um pio no colo dela. Nem um pio já sentada no chão junto aos coleguinhas. E nem um pio quando o pai se despediu com um “até logo”. Estava absorta numa expressão “até que enfim, estava a ver que nunca mais me trazias para aqui outra vez”. Não houve choro, portanto. Houve sim um vazio, instalado sorrateiramente no pai, que demorou alguns minutos a passar. Era uma segunda-feira transvestida de quarta-feira chuvosa. Mas a Maria só viu o sol.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
PAI-CÁBULA
Já passou a metade da semana em que estou (mais) responsável pela Maria. Com a escolinha fechada e a mãe de regreso ao trabalho, a coitada não teve outra possibilidade senão passar uns dias intensos só com o papá. Quando escrevo estas linhas, já lá vão dez refeições, talvez o dobro de fraldas, e o triplo ou quádruplo de vezes em que apanhei a fronha de dormir/descansar do chão.
A Maria serenou com a perspectiva de ser tratada por mim quando viu as cábulas deixadas pela mãe. Uma folhinha inteira, frente e verso, com as rotinas diárias, mais uma pequena com o menu do dia e ainda um post-it com lembranças de última hora. Com as fraldas, os cremes, as roupas razoavelmente controladas, dediquei maior atenção à preparação das refeições. Li tudo como quando vejo uma receita, assim na diagonal, na expectativa de decorar os passos de forma automática. Mas como não é raro terminar os cozinhados e lembrar-me “ups, faltou o sal!”, no segundo dia li as directrizes alimentares com mais cuidado.
Tenho a vida facilitada, confesso. O leite matinal é rotina já de longa data. Ao almoço, a sopa está feita e é só preciso aquecer, juntar um pedaço de carne triturada, de peixe desfiado, de gema de ovo cortada. Migar uma banana ou descascar e triturar um pêssego, uma maçã ou uma meloa. Ou cortar uma manga ou uma papaia e fazer “sumo”. O lanche varia entre leite, iogurte com o resto da fruta e bolacha partida, ou papa. Ao jantar, o turno da mãe já está de serviço à filha.
Entre as refeições, há tempo para verificar as evoluções da Maria. Sentada no hall, hesita em colocar-se na posição de gatinhar. Fica ali presa no último momento, no impulso decisivo que ainda falta, nesse salto de coragem e de fé que a colocará de mãos no chão, depois de aterrar de cabeça umas quantas vezes. Nesse impasse, gera-se o desconforto. Surge o pedido de auxílio para que a coloquem na posição inicial. Sento-a. E ela descobre que consegue movimentar-se, mesmo sentada. De marcha-atrás em busca do brinquedo longínquo. E sem precisar de cábulas, como o pai precisou.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
DEZ MESES, TRÊS DELITOS
1 – BIRRA DO SONO
Olhos vermelhos. Mão a coçar os olhos. Olhos ainda mais vermelhos. Bocejo atrás de bocejo. Lá vai a mão novamente. “Tens soninho filha, vá dorme”, enquanto se deposita a fronha na mão dela. Dormir? Qual quê! Fronha fora, choro convulso, arquear do corpo do carrinho (na cama, nesta fase, nem vale a pena tentar). Não durmo, não durmo, não durmo. Receita? Só lá vai com paciência, música clássica, embalar do carrinho. Até que a birra ceda ao sono. O pai especializou-se nesta tarefa. Consegue ver jogos de futebol e séries enquanto abana o carrinho com o pé.
Passo seguinte: colocar pesos no carrinho para exercício do pai.
2 – VAI BUSCAR!
Os copinhos colocados no tampo da cadeirinha para ela brincar enquanto come? Chão. É tão giro ver os papás apanhá-los! A fronha para adormecer? Chão. É tão giro continuar a fazer birra! Os múltiplos brinquedos com que interage no chão? Assim que se aborrece, voam pelo quarto fora. É tão giro ver os outros irem apanhá-los para colocar no saco. E por aí fora...
Passo seguinte: instalar cestos de basquete em várias partes da casa. Assim, enquanto atira os objectos, a Maria sempre pode ir praticando desporto.
3 – ALERGIA AO TROCADOR
A Maria, assim que assenta as costas no trocador, tenha sono ou não, esteja bem ou mal disposta, começa logo a berrar. Ela que até dá logo sinal quando tem a fralda suja (gosta de estar limpinha), tem uma alergia enorme à posição deitada e principalmente quando é no trocador. Para a distrair, canta-se, dança-se, assopra-se na testa, faz-se cócegas, dá-se coisas para a mão. Há vezes em que nada resulta a não ser o regressar à posição vertical. Antes disso já conseguiu raspar a tinta da parede com a escova e deitar cinco ou seis objectos para o chão.
Passo seguinte: trocar a escova por um pincel com tinta e colocar o trocador junto de partes da parede que precisem de retocar a pintura.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
EVOLUÇÕES CAMALEÓNICAS
Uma semana de férias para a Maria aprender o que é a praia. Tempo mais do que suficiente. Isso se não estivéssemos a falar de Peniche, cidade “insular” cujo clima é capaz de ser o mais peculiar de Portugal continental. Céu limpo e temperaturas abrasadoras em Lisboa? Nevoeiro compacto e vento frio em Peniche. E assim se passa uma semana, com diferenças no termómetro a rondarem os dez graus (a menos do que no resto do país, claro está), e escassas abertas para a praia. Fomos uma vez com a Maria. Estava muita gente em redor mas depois de uns dias em família alargada ela já estava habituada a grandes barafundas. O contacto com a areia, primeiro os pés depois as mãos, revelou-se incómodo. Melhor foi o mar, primeiro a banhar os pés, depois num olhar atento para o correr das ondas em direcção ao areal. Estava ao colo do pai, com um braço em redor do pescoço e uma mão a puxar os pelos do peito, aprendizagem recente e dolorosa para a facção paternal.
Com mais tempo para apreciarmos as evoluções, a semana findou com um saldo negativo de praia mas com mais uma série de “já-sei-fazer”. Não interessa muito se vieram tarde ou cedo. Interessa que já cá estão. A mão a tirar as meias e depois a agitá-las no ar num sinal de conquista e satisfação. Os braços estendidos para pedir o colo do pai ou da mãe. O corpo a rebolar na cama até ficar de gatas, sem começar logo a chorar por não saber o que fazer. A boca a receber e apreciar uma sopa de feijão e uma açorda de alho preparadas pela avó materna. As mãos a repetirem gestos propostos pelos adultos (do clássico “põe põe a galinha o ovo / prá Maria papar todo” até ao misterioso “cassapinho andou andou / debaixo d’água não se afogou”).
E o coração a descobrir o ciúme sempre que o pai abraçava a prima de cinco anos. De repente, sinto-me um objecto pertença da Maria. Não deve tardar muito até que me obrigue a ficar no saco de brinquedos, devidamente (res)guardado do resto do mundo. Regressado a casa, entrei em estágio. Estou a preparar-me para disputar arduamente cada centímetro de espaço dentro do saco azul com o camaleão gigante.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
NOVE MESES, CINCO OBJECTOS

A Maria cumpre nove meses. Para assinalar a data, aqui estão cinco objectos de que ela gosta especialmente. É provável que a lista pudesse apresentar ligeiras diferenças na semana passado ou na que ainda está por vir. Mas estes objectos não deixariam de ter uma resistência especial.
FRONHA, melhor conhecida pelo Ó-Ó
O ó-ó é o companheiro inseparável da Maria. Seja para dormir na cama ou acalmar no carrinho, ele tem de estar presente. Quando entra em cena, dado para uma das mãos ou colocado (às vezes até atirado) em cima da cara, tem um efeito imediato no serenar do choro. Está umbilicalmente associado ao dedo na boca (a Maria rapidamente rejeitou a chucha para nosso desprazer). Faz lembrar a fralda que o Linus do Charlie Brown carrega para todo o lado.
CARRINHO DE BEBÉ
É um objecto todo-o-terreno. Não só serve para os passeios no jardim e afins como é o local preferido para o descanso após o desgaste dos dias passados na escola. Actualmente, a Maria já dá o jeitinho necessário aos braços para colocar ou retirar os cintos. E encontrou utilidade no varão de segurança para pousar os pés ou as pernas. Gosta de adormecer numa espécie de ninho, com a capota posta. O papá especializou-se em empurrar o carrinho com o pé, enquanto sentado no sofá a ver séries ou filmes.
URSINHA DADA
Da dúzia de bonecos e brinquedos à disposição da Maria, a ursinha Dada acabou por ganhar um papel de relevância. É a companheira ideal para os momentos de contemplação no carrinho, seja de manhã enquanto o papá ou a mamã se aprontam, seja de tarde enquanto espera pela chegada da sesta pré-banho. Conversam bastante as duas, provavelmente sobre as parvoíces parentais. Ao contrário do que acontece com outros bonecos, a ursinha é quase sempre tratada com gentileza.
COPINHOS COLORIDOS
Proveniente da prima de Peniche, o conjunto de copinhos coloridos que se encaixam como matrioscas constitui a principal diversão à hora da refeição. A Maria aborda o tema através das variações bater-com-o-copinho-no-tampo-da-cadeirinha, bater-com-um-copinho-no-outro, e a clássica deitar-o-copinho-para-o-chão. No banho, a presença dos copos também é imprescindível, sendo o molhar-a-mamã uma das actividades favoritas. Recentemente adquirimos outro conjunto de copinhos, com rebordos “mastigáveis”, que vieram acrescentar uma nova brincadeira: a construção pelos pais de um arranha-céus de copinhos que a Maria “King Kong” se apresta a derrubar. Tenho a impressão que depois vai ser mais difícil ensiná-la a construir...
FLOR
É um objecto que acompanha a Maria desde o nascimento e que continua a ter utilidade. Escondida no cestinho que contém as fraldas, os cremes, os soros e restantes et cetera, a flor é elemento apaziguador durante a tarefa do vestir ou trocar fralda. A ocasião é um suplício para a Maria que se irrita por ter de estar deitada. E, se bem que a quantidade de tempo de distracção proporcionado varie de dia para dia, o malmequer macio e sorridente continua a ser o primeiro truque da lista. Por vezes, desde que não haja engano e coloquemos a tocar a música dos parabéns com que a Maria sempre embirrou, dá conta do recado sozinho. Doutro modo, é preciso passar à forma de distracção seguinte que tanto pode ser a escova do cabelo, o babete, as peças de roupa a vestir, o sapo voador, o polícia sinaleiro, o pai dançarino... ufa... ó filha, voltamos à flor que é tão bonitinha?
quinta-feira, 23 de julho de 2009
NAMORICO PRECOCE
O pior é que uma vizinha de prédio anexo já se aprestava a ditar sentenças: “Então João já tens namorada? Escolheste bem!”. Urge rectificar a senhora. Um: não há namoro nenhum (amanhã levo a Maria vendada para isto tudo acalmar). Dois: tenho cá a impressão que a Maria é que faz as escolhas.
No meio disto tudo salvam-se os pais do rapaz, sempre simpáticos e nada incentivadores deste tipo de pré-arranjos matrimoniais. No fundo, acho que eles já entenderam que se calhar arranjam para o João melhor... sogro.
terça-feira, 21 de julho de 2009
CUIDADINHO COM AS CONFIANÇAS...
Hoje a cena repetiu-se. Saímos do elevador e lá está ele ao colo da porteira. O puto já cumpriu um ano e tem cara de reguila. Hoje está com cara de amuo. Exponho a Maria aos “Olha a princesa! Que linda!” acompanhados dos “Olha aqui o João!” e ele comporta-se com dignidade, sem esboçar um sorriso. De repente, o miúdo arreganha a boca, mostra a dentição avançada, sorri para a Maria e começa a bater palmas. A porteira dá pulos de alegria mas eu fico impávido. Demora dois segundos até a Maria retribuir as palminhas. E ficam os dois nisto durante uns segundos. Tento escapulir-me enquanto a senhora com o miúdo ao colo recupera do orgasmo de felicidade pelo entendimento entre bebés acabado de testemunhar.
Lá fora, aviso a Maria para ter cuidado com estes gabirus mais velhos. E amanhã acho que vou agarrar nela de forma a que não consiga bater palminhas e encorajar os avanços do João. É que se isto prossegue, para a semana a porteira já marcou a data do casamento.