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quarta-feira, 3 de março de 2010

VEM ESTIVILLIZAR... OU TALVEZ NÃO


Ontem assisti na RTP2 a uma entrevista do famoso pediatra neurofisiológico Eduard Estivill. Não o conhecia "pessoalmente" e engracei logo com aquele lado catalão de nos tratar à vontade, sem grandes deferências ou arrogâncias doutorais (nós continuamos dos países mais atrasados nisto de usar títulos catedráticos e profissionais como se estivéssemos nas cortes medievais). A minha introdução ao senhor Estivill foi relativamente recente. Pais preocupados com a dependência da Maria do carrinho de rua para adormecer e rejeição automática da cama caso não estivesse em sono profundo, recolhemos informação, lê-mos e decidimos aplicar o método Estivill para o sono.

Foi por isso que ontem ouvi deleitado os estudos e descobertas científicas que sustentam as medidas preconizadas no livro-método e que tanta celeuma levantam entre pais e mães e, ao que parece, alguns pediatras e outros especialistas. Estivill lá dizia ao entrevistador (que a certa altura assumiu uma postura de advogado do diabo, citando mesmo um testemunho recolhido na Internet de uma mãe "ofendida" pelo método) que não era "um pregador, um guru". Que apenas relatava os factos das suas descobertas, para quem os quisesse seguir.

Nós seguimos. E por muito que nos tenham custado os primeiros três ou quatro dias de braço de ferro com a Maria, estamos contentes por o termos feito. Hoje ela deita-se a horas certas - com um intervalo de tolerância que não torna a coisa demasiado rígida - directamente na cama e sem passar pela casa carrinho de rua ou colo de papá ou mamã (também vivemos esta fase de a adormecer ao colo...). Hoje ela dorme na sua cama e no seu quarto a noite inteira; quando acorda durante a noite, readormece sozinha a maior parte das vezes. Hoje ela é mais autónoma e auto-suficiente do que no passado. Os pais, malvados, já não a embalam horas ao colo até adormecer. Os malandros passam esse tempo a tratar da cozinha ou ver filmes. Os velhacos passam esse tempo em casal, ou nas suas coisas independentes. Enquanto isso ela dorme, sozinha, imersa sem transtorno alheio no reino dos seus sonhos. Como se estivesse num filme de Michel Gondry.

A mãe do testemunho, preciosa aliada do entrevistador (pareceu-me demasiado partidário, alguém confirma?), dizia que nunca deixaria a filha(o?) a chorar por uma questão de conveniência dela. E então, por essa razão, a criança dormia com a mãe. Eu, criança que dormiu no passado na cama da mãe, pergunto-me de quem será efectivamente a conveniência: de uma criança "inocente" que sente as coisas de uma forma só porque (ainda) não foi ensinada/acostumada de outra, ou de uma mãe desamparada a quem sabe bem o carinho e apego incondicional de um filho?

No meu caso, sobre os efeitos, basta-me dizer uma coisa: quem me dera terem-me ministrado o método Estivill...

P.S. - Independentemente disso, esta é daquelas revelações que um dia a Maria certamente nos irá questionar. Mas e então: ser pai e mãe não é aceitar o jogo de tentar ser o melhor possível, sabendo que nunca seremos perfeitos? Por isso, minha menina, volta lá para a tua cama no teu quartinho, se faz favor como os papás te ensinaram quando eras pequenina. Mas antes levas um beijinho e um abraço apertado.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

MAIS UMA PARA A ESTATÍSTICA


Os desportos têm estatísticas para tudo e para nada. Num jogo de futebol contabilizam-se passes certos e errados, recuperações e perdas de bola, remates à baliza e para fora, quilómetros percorridos... Gostava de ver isso aplicado à parentalidade. Por exemplo, hoje, gostava de ter sabido o seguinte:

- total de biberões de leite já dei à Maria
- total de fraldas mudadas (divididas em "com cocó" e "sem cocó")
- total de miligramas de cremes aplicados (divididos em tipo de creme e partes do corpo)

Isto sim, parecem-me informações importantes e pertinentes. Mas nada de comparativos com a mamã, que dá-me abadas em todas as alíneas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MOMENTOS EM FAMÍLIA


Numa entrevista já antiga do Pedro Bidarra, director criativo da BBDO, ao jornal i, os conceitos da publicidade misturam-se com as vivências familiares. E, de repente, pode soar um sinal de alerta para passarmos (ainda) menos tempo à frente do televisor. Ou em frente do televisor, quem sabe, a tentar estabelecer pontes. Seja como for, por enquanto ainda resistimos a instalar uma televisão na cozinha. Na hora das refeições ouve-se música. Ou o silêncio entre as palavras.

"Mesmo numa casa onde viva um homem, uma mulher e uma criança, é difícil aquela família partilhar as mesmas coisas. Estou a falar de experiências de comunicação e de entretenimento. É muito difícil que uma filha partilhe a mesma coisa que a mãe ou o pai. Com tantas referências, a pessoa tende a criar conteúdos e assuntos que viajam em diferentes meios. Depois há uma televisão em cada quarto, há Internet, outros estímulos. Cada um está fechado no seu mundo. Felizmente, ainda há pontos de contacto, mas é preciso procurá-los."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ANOITECER DE VERÃO OUTONAL
(UM CONTO EM QUATRO ACTOS)


(acto I)
Rua fora, os néons das lojas a contestar a luz dos candeeiros públicos, a caminho de casa com um frango assado no saco. No passeio à minha frente, uma avó e duas crianças. O miúdo, mais novo que a irmã, pergunta:
- Avó, em casa posso calçar os ténis novos?
O consentimento é quase inaudível mas a réplica da menina não.
- Não percebo porque é que arranjas sempre coisas novas para ele e para mim não.
- Porque TU já tens dois ténis! E eu só tenho um! – adianta-se o irmão.
A avó permanece calada. A irmã, sempre serena, aplaca o ciúme.
- São giros? – condescende a irmã.
- Buéda fixes!
- De que cor são?
- Às cores – responde ele.
- Que cores?
- São muitas!
- Mas quais?
- Não me lembro!
Estou em plena ultrapassagem ao trio da avó calada, da menina calma e do miúdo com ténis muita fixes dos quais já não se lembra. Após um breve silêncio, regressam as vozes.
- Azul?! – insiste a irmã.
- Já te disse que não me lembro!!!
Ultrapassei-os e começo a afastar-me.
- Verde?
- Não sejas chata! Já disse que não sei!

(acto II)
Deixo de ouvir. Dois quarteirões à frente, uma mãe empurra com as duas mãos um carrinho de criança na minha direcção. Não é a primeira vez que a encontro. Tem sempre um cigarro preso entre os dedos, a fumegar para onde o vento sopra. Às vezes é para cima da criança, invariavelmente calada. Cruzamo-nos ao estilo comboio-bala.

(acto III)
Mais à frente, um homem segura uma caixa junto ao carro. Junto à porta traseira, uma mãe instala a filha na cadeirinha interior.
- VÁ LÁ QUE JÁ SÃO SETE E MEIA! ENTRAAAA!
A menina inicia um choro contínuo. A mãe persegue na irritação. O pai segura a caixa. O choro soa como uma sirene de bombeiros que se ofusca lentamente à medida que me afasto e galgo o resto dos metros que faltam até casa. O frango ainda vai quente.

(acto IV)
A Maria acabara de comer. Recebe-me com um sorriso enorme. Quatro dentes brilham, dois em baixo, dois em cima. Deixa os pais comerem o frango enquanto explora o chão da cozinha atrás de uma bola. Bate com a cabeça num pé da mesa. E começa um choro que parece uma sirene de bombeiros. É resultado de sono, concluímos, falta da sempre necessária sesta que não fizera. Todos os truques de adormecer ou acalmar falham. A sirene não termina. Até uma mãe salvadora lembrar-se de cheirar uma fralda. Cheia e a fazer arder um rabinho assado. O pano desce. A peça de verão outonal terminou. Os críticos que lhe façam os julgamentos morais.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

PUZZLE GENÉTICO


Quase acabadinho de nascer, com cerca de meio metro, olhos fechados, corpo e expressão frágil, e já cada bebé começa logo a ser retalhado pelas famílias do pai e da mãe. Chegam uns e sentenciam que “tem os olhos da mãe”. Vêm outros e reconhecem logo “o queixo e as orelhas do pai”. Rapidamente, todas as partes do bebé vão sendo tomadas, uma a uma, pelas duas facções beligerantes. Parece o jogo do Risco, com árduas batalhas pelo território do recém-chegado. “A cara redonda da mãe? Ai não, nem pensar, ela é toda pai!”. “O quê? O nariz do pai? Longe disso, felizmente, coitadinha da menina! É nariz cem por cento mamã!”

Assistimos calados a estas movimentações no tabuleiro de pertenças deste e daquele lado. Quando nos perguntavam a opinião, dizíamos que a Maria era parecida com… a Maria. Claro que na intimidade lá fomos reconhecendo esta ou aquela feição, esta ou aquela expressão, mas sem dar demasiada importância ao puzzle genético. Ainda assim, confesso que resisti algum tempo à possibilidade, entretanto confirmada, de a Maria ter o cabelo aloirado. Ou melhor, castanho-claro como o papá diz.

Melhor ainda fez uma bisavó paterna. Mal viu a Maria, apressou-se a proclamar a sentença: “Ah, ela não tem nada de pai.” E lá encontrou semelhanças com vários elementos da parte familiar maternal. Subitamente com dúvidas sobre a efectiva paternidade da criança, ainda perguntei “Ó avó, mas não há nem uma coisinha parecida comigo?”. Mais valia ter estado calado, perante a resposta categórica: “Ai, é que nada mesmo. NADA.” Suspiro. Até neste Risco-Bebé há alianças que surgem do sítio mais inesperado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

PARADIGMA DO NOVO-PAI


Os tios Ricky e Tita casaram. A Maria esteve lá, a espreitar para a salinha da conservatória em que se assinavam nomes e trocavam alianças. Depois posou para as fotografias da praxe. Jantou comida de frasco pela primeira vez na vida no restaurante do copo de água. Brincou, riu, chorou, dormiu ao longo da tarde-noite. Ela e outras bebés praticamente da mesma idade. Uma delas, a Clarinha, até “cantou” karaoke. Microfone na mão em pose de estrela de rock.
Entre a barafunda benigna do casório surgiu uma imagem colectiva inusitada. Um paradigma dos novos tempos parentais. As bebés mais pequenas tinham em redor não só a mãe, como sempre foi e será regra, mas também os pais. E os tios. E os amigos. Há uma nova geração de homens que não se limita a transportar os bebés e as crianças daqui para ali. Também dança e canta com eles, troca-lhes as fraldas (ou ajuda a trocar…), embala o carrinho, dá-lhes de comer. Há um lado maternal a despontar em cada pai. Há uma geração de crianças a ser criada com novas regras do afecto. Dificilmente assistiríamos a este quadro unânime de amor paternal – exteriorizado sem ponta de vergonha num abraço aconchegado, num sorriso emocionado, num beijo apaixonado –, num casamento ou qualquer outra manifestação pública de há 30 ou 40 anos.
No dia em que os tios Ricky e Tita casaram, confirmou-se a existência do famoso conflito de gerações. Os novos pais que gravitam na geração dos trinta anos, nada têm a ver com a geração dos próprios pais, residentes nas casas dos cinquenta ou sessenta anos. Agora, os filhos não têm de mendigar afecto. Os mimos chegam-lhes de forma espontânea e benévola, oriundos das eternas mães mas também dos "novos" pais, distantes da figura fria e inalcançável que reinou no passado.
Acreditemos que esta mudança profunda terá consequências individuais em cada um dos nossos filhos e efeitos colectivos numa sociedade formada por pessoas mais amadas. Mas preparemo-nos para que o conflito de gerações se renove constantemente, adoptando novos formatos. Não será de admirar que um dia eles nos digam: “Ah, mas TU estragaste-me com mimos!”
Corremos sempre o risco de quando os nossos filhos forem “grandes” acharem que nós não fomos os melhores pais. Ainda assim, estragado por estragado, parece-me preferível apostar no novo paradigma vigente em detrimento do velho modelo paternal. É que esse já foi testado até à exaustão, com resultados maioritariamente insatisfatórios.
Por isso caros papás, vão lá dar mais uma dose de carinho “em excesso”. Ficam desde já desculpados.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O PAI TIRANO


Assisti esta semana a uma entrevista televisiva com Eduardo Sá. Sempre que o ouvira anteriormente, nunca fora gerador de empatias. No programa “Há Conversa”, o psicólogo discorreu, como seria de esperar, sobre o acto de educar crianças. Mas por tudo o que vou lendo e ouvindo, a principal tarefa dos dias hoje parece ser educar… os pais. Os paradigmas estão a mudar rapidamente e diz-se existir uma “epidemia dos pais bonzinhos”. Aqueles que pretendem ser os melhores amigos dos filhos e que, frequentemente, lhes fazem as vontades isentando-se do papel de regulador. O importante para estes pais é que os filhos os vejam como uns porreiraços. No fundo porque confundem autoridade com autoritarismo. A existência de algumas regras foi aliás inserida nas três pedras basilares da educação nomeadas pelo especialista:

1) Colo. Dar muito colo, muito carinho, no sentido de que dar afectividade aos filhos nunca é demais.
2) Autoridade (q.b.). No sentido de que é necessário aos pais estipularem algumas regras a cumprir pelos filhos, facto que não os transforma em pessoas autoritárias.
3) Autonomia. No sentido de preparar as crianças para se tornarem independentes e responsáveis.

Embora a entrevistadora tenha desaproveitado parcialmente o convidado (através de perguntas-monólogo longas e demasiado coladas aos próprios pré-conceitos e experiências), Eduardo Sá conseguiu passar mensagens contundentes, como a necessidade de as escolas estarem obrigadas a alterar programas e conceitos, por forma a cativar os alunos. Queixou-se da carga semanal de trabalho das crianças, que excede as míticas 40 horas que os adultos tanto almejam. As crianças crescem com 10 minutos de recreio entre aulas de 90 minutos, salientou. Após o longo dia de aulas, ainda gastam mais horas em actividades como explicações ou os famosos trabalhos de casa. Ou seja, estamos a criar adultos em idade de criança. Que tempo sobra para brincarem ou passarem um tempo relaxado com a família?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

PEDIATRA LARGUEIRÃO


Escolher um pediatra é como escolher roupa ou sapatos. Há quem goste de camisolas largueironas, há quem prefira calças justinhas. Mas além da questão do mero gosto, é importante que a roupa assente bem. Que esteja de acordo com a pessoa e não provoque uma sensação incómoda. Assim, faz pouco sentido escolher um pediatra rígido quando somos uma pessoa que tende para o liberal. Da mesma forma que não será produtivo seleccionar um pediatra “despreocupado” quando se prefere e necessita de regras definidas e estanques.
Abordámos a escolha do pediatra da Maria na procura de um equilíbrio. Por um lado era urgente mostrar ao pai a necessidade de determinar e cumprir algumas regras; por outro era crucial revelar à mãe que nem tudo precisa de ser controlado a régua e esquadro. O pediatra da Maria assentou como uma luva. Desde a primeira consulta que o dr. Luís Pinheiro retirou imenso peso dos nossos ombros nesta tarefa exigente e difícil de criar uma criança. Às vezes saíamos do consultório com a sensação de que a Maria quase se iria criar sozinha.
Nos momentos de (relativa) aflição, devo dizer que ansiámos por directrizes claras e inequívocas. Houve alturas em que as obtivemos. Mas na maioria do tempo, aplicámos o bom senso tantas vezes preconizado, misturado com leituras de manuais de pediatria [os fóruns de mães foram colocados para segundo plano, face a tanto disparate que lá se pode aprender no meio de algumas dicas úteis]. E, acima de tudo, uma grande descontracção. Ou talvez a mera constatação de que, independentemente do nosso desejo, a Maria irá volta e meia ter febre, tosse e nariz entupido. Vai ter dores de dentes e de barriga. Vai chorar, por muito que isso nos custe. Afinal, a nossa filha não é a super-mulher. Também é humana como nós.
Em conjunto com o trabalho dedicado e carinhoso da nossa médica e enfermeira de família do centro de saúde, a verdade é que a Maria tem sido criada num ambiente de regras sem demasiadas… regras. Principalmente tem sido criada num ambiente sem dogmas castradores, receios exagerados, redomas assépticas. Tem sido criada por uns pais humanos, que erram e acertam nas acções tomadas, mas que procuram munir-se de informação fidedigna para aliar o lado racional à vertente emocional.
Temos assim um pediatra adequado porque nos dá confiança para agir autonomamente, dentro de certas linhas orientadoras generalistas. Este voto de confiança nas capacidades e discernimento dos pais para criar um filho, esta responsabilização do lado parental, tem gerado uma sensação de bem-estar, a par de um espírito positivo. Um auxílio precioso para que a Maria não seja apenas um mar de cadilhos. Graças a esta atitude pedagógica, guardamos as nossas preocupações sérias para quando surgirem problemas… sérios. Porque isto é uma lotaria. E como nunca sabemos o que nos calha na rifa, o melhor é procurar viver como se todas as semanas ganhássemos o primeiro prémio.
Nem sempre é fácil ou possível aplicar esta fórmula do “carpe diem” a tudo na nossa vida. Mas com a ajuda educacional do nosso pediatra e da nossa médica, com a Maria tem sido assim mesmo. E nas semanas mais complicadas, se não acertamos nos seis números mágicos, acertamos pelo menos em três. A Maria tem dado sempre prémio. Qualquer dia estamos milionários.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

CAVAQUISTÃO PARENTAL


As mães lidam com os seus bebés de uma forma naturalmente protectora. Não interessa regressar às razões para tal, mas sim abordar os efeitos. Um deles é o chamado efeito redoma. De tanto quererem evitar que algo aconteça aos filhos, as mães acabam por cair nos excessos. “Não mexas que esteve no chão. Não corras que podes cair [uma descoberta mais importante do que a Teoria da Relatividade]. Não grites que ficas rouco. Não andes na terra que te sujas. Não pules que te cansas. Não mexas na flor que tem pólen e espirras. Não saltes que podes cair [e vamos parar aqui com os “não-qualquer-coisa” que acabam em cair]. Não tires o barrete que te constipas. Não comas depressa que te engasgas. Não comas devagar que te... olha, não sei, mas que acontece qualquer coisa!”
A maior parte das vezes, as frases são ditas num tom professoral. E têm sempre uma segunda parte pronta para atirar: “Estás a ver? A mãe não te disse?!?” Disse sim senhor. E é por isso que as mães são o Cavaco Silva das questões parentais. Colocam aquele ar doutoral, como quem vai dar as coordenadas a seguir escrupulosamente sob pena de o mundo poder descambar, e aí vai disto. Claro que, à medida que as crianças crescem, passam a actuar da mesma maneira que os cidadãos deste país perante os discursos do Cavaco: o nosso Presidente até pode dizer coisas acertadas, mas ao quarto parágrafo já ninguém tem pachorra para ouvir o que ele está a dizer.
Sinto um coro de protesto das três mães leitoras deste blogue. Tenham calma. Porque se as mães são o Cavaco, os pais são o Bloco de Esquerda. Somos fantásticos na aplicação do discurso liberal, principalmente nos casos em que depois de haver cacos não nos cabe a nós ir limpar. “Corre à vontade à beira dessa falésia! Faz um buraco na terra para te meteres lá dentro! Não comas isso se não te apetece! Copia os trabalhos de casa, só mostra que és esperta!” Face a esta liberdade sem barreiras, é inevitável que a mãe-Presidente, sempre atenta, acabe por intervir: “Mas quem é que depois lava a roupa suja da terra?”
Lá está. Mesmo correndo o risco de ser linchado por alguns pais-leitores, devo salientar que em alguns casos a mãe-Cavaco até pode ter razão. Mas há alguém que dê ouvidos ao Presidente? É que ter razão é tãooooo chato!

terça-feira, 7 de julho de 2009

UM DESACORDO TODO PIPI


Não consigo entender como é que anda tudo tão preocupado com o acordo ortográfico da língua portuguesa quando ainda subsiste um problema gravíssimo no domínio da linguagem pais-filhos. Qual? Como é que vamos chamar à... chamar a... chamar ao... chamar àquilo!
Na família AV, o sexo da menina é oficialmente a “Lóló”. Eu não engraço com o termo. “Vamos lavar a lóló” parece-me qualquer coisa como ir ajudar uma avó velhinha a tomar banho. Ou recorda-me um ló do pão-de-ló mas com eco.
Não seja por isso: a secção da família maternal da Maria é rica em alternativas. Mas “Flor” não melhora em nada o panorama, até pode criar confusões na criança ao ouvir mais tarde “essa flor já está a cheirar mal” ou “ai que flor linda!”. Quanto a “Papeleca”, é um autêntico mistério sobre origem e significado. Mais uma vez, noto uma certa desadequação: “Anda tratar da papeleca” parece mais uma indicação para um escriturário ou contabilista do que para uma menina. Finalmente, espaço ainda para o fantástico “Bechaninha”, assim dito com “e” em vez de “i”. Só posso crer que este termo é o aportuguesamento não premeditado de “pussy”. Ainda assim, “lavar a bechana” parece-me mais indicado para significar “ir dar banho ao gato”.
Do lado paternal da Maria a situação ainda é pior. Há uma verdadeira omissão de expressões, um vazio ritual por preencher. Perguntei à minha avó como se referia à dita cuja enquanto criava as filhas e ela respondeu que nunca teve necessidade de mencionar especificamente esse local geográfico das meninas. E quando teve, utilizou um dá-pró-menino-e-prá-menina: “o Xixi”. Ora, não me parece que vá dar bom resultado mandar a Maria “lavar o xixi”.
A questão não é para rir. Isto é muito grave e custa-me que os senhores catedráticos não se debrucem sobre a questão. Eu ainda tentei impor um novo termo cá em casa, mas “Gina” (ou o diminutivo “Gininha”) não gerou simpatias, vá-se lá entender porquê. Cá por mim, tudo me parece melhor do que acontecer o mesmo que à mãe da Maria. Durante anos e anos, a AV pensou que era diferente das outras meninas: é que ela tinha uma “Lóló” em vez do muito comum “Pipi”.
Acontece que também não estou contente com a generalização do pipi. É que a palavra é demasiado oferecida. Segundo o dicionário, tanto significa o “pénis de criança” como as “partes pudendas das crianças do sexo feminino”. Além disso, serve de alternativa ao “fazer xixi”. Mas ainda há pior. Analisemos dois problemas por que uma criança pode passar caso aprenda que o pipi é o sexo dela.

Pergunta: “Onde está o pipi?”
Resposta da criança: tendência a indicar o meio das pernas
Real significado da pergunta: “Para onde foi o pintainho?”

Pergunta: “Vais todo pipi!”
Resposta da criança: tendência para ver se tem a braguilha aberta
Real significado da pergunta: “Estás muito elegante!”

Já para não falar de que, quando aprenderem a ler, as crianças vão saber que em qualquer tasca portuguesa também “há pipis”. Ou se por acaso alguém da televisão pensar em repor a Pipi das Meias Altas. Estão a imaginar a confusão que isto pode gerar? Na verdade, há demasiados pipis para que o termo possa ser utilizado como oficial para representar a coisa da menina e do menino. O lado masculino, por mim, ficava já arrematado na “pilinha”, que não dá azo a confusões (excepto aquela típica da matemática). Mas e para a menina? Como chamar àquilo, hum?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

EQUILÍBRIO DA ESPÉCIE


Apesar de nas últimas décadas andar-se a defender que somos todos iguais, a verdade é que continuam a existir diferenças entre homens e mulheres. A forma como os dois sexos lidam com as crianças não é excepção. Analisemos o assunto recorrendo a generalizações (e a excepção será conotada como a confirmação da regra).
De um lado temos as mães. Elas encaram os seus bebés como uma extensão do próprio ser. Afinal, andaram a carregar o bebé durante uma data de meses, enquanto se concretizava o apelidado “milagre da vida”. Por isso, a mãe tem uma inclinação natural para criar dos filhos. Eles são sempre a prioridade, que nem tem de ser equacionada ou pensada.
Do outro lado temos os pais. Eles também encaram os seus bebés como uma extensão do próprio ser. A diferença é que andaram a carregar a mãe, ainda mais pesada do que o habitual por causa do bebé, durante uma data de meses. Logo aqui, já têm razões para ficarem mais cansados. Também lhes ocorre um “milagre da vida” na barriga, mas é mais duradouro e constante (o estômago cresce ao longo dos anos, fruto de combinações complexas de cenas bebíveis e comestíveis). Por isso, têm inclinação natural (e altruísta!) para deixar a mãe criar os filhos. Para os pais, a prole é sempre secundária, algo que nem tem de ser equacionado ou pensado.
Exemplifiquemos com a prática. Quando acorda, ou chega a casa, ou vai buscar a criança/bebé à escola, o que faz a mãe? O instinto impele-a para ver se a criança está com fome ou está asseada ou está qualquer coisa. O homem chega a casa, ou acorda, e o que faz? O instinto impele-o para ver se o computador está a funcionar bem ou se a televisão não avariou.
Ultimamente, surgem notícias de casais que estão a alterar esta ordem natural das coisas. Sabe-se de pais que não actualizam blogues por colocarem o bebé como prioridade. Não faço ideia do resultado que isto poderá ter no equilíbrio da espécie humana. Mas vai ter. Já estou a ver os papás a terem de parar o que estão a fazer no computador para terem de acorrer ao choro das crianças. É que a mamã pode bem estar ocupada a tentar perceber como funciona o objecto mais misterioso para qualquer mulher: o comando da televisão.
Tsccc, tscccc, tsccccc. Dou por mim a concordar com os velhotes do autocarro: “Aaah! No meu tempo é que era!”

quarta-feira, 1 de julho de 2009

PERIGOS ESCONDIDOS

Quatro mães e seis crianças – duas de colo – passeiam num recinto desportivo ao ar livre. Ali não há carros. As pistas existentes são para correr ou caminhar em redor de quadras de ténis, campos de futebol, pavilhões gimno-desportivos. Proliferam os eucaliptos e pinheiros que providenciam sombras. A tarde está quente e agradável. Há bebedouros de água para aplacar a sede. Apetece de facto dar uma corrida para brindar ao bom tempo. As crianças mais crescidas desatam a saltitar entre o caminho asfaltado e a terra cheia de folhas secas.

- Henrique, venha já para o pé da mãe!! – diz uma aflita.
- Gonçalo, não te afastes! Vem para aqui! – grita outra, também aflita.

Um dos miúdos pára, temeroso, e começa a chamar pelos restantes que continuam a afastar-se. Duas mães aprestam-se a apanhar e segurar as outras crianças.

- Estão a ver?! É por isto que eu não venho mais vezes para aqui!!! - conclui uma mãe olhando para as outras, desesperada porque o filho se afastara momentaneamente dois metros dela. E já com a cria debaixo da guarda, avisa-a: - É aqui que quero que vás! Ao meu lado! Sem sair daí!

Apetece de facto correr para celebrar a alegria de uma tarde belíssima. Ali não há carros. Mas há terra, bebedouros, árvores, até mesmo um parque infantil... Deve ser por isso que é perigoso andar por lá. Apresso o passo. Vou mas é regressar às vias cheias de automóveis a alta velocidade e ruídos citadinos. Pfiiuuuu, acho que escapei por pouco!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CONTROLE ABSOLUTO


Vou fazer de advogado do diabo, mas porque sou medroso vou ali buscar ajuda de um dos homens mais durões do cinema: o Clint. Numa entrevista publicada na Esquire, o senhor Eastwood recorda a visita a uma enorme cascata num glaciar islandês. Adultos e crianças assistiam ao espectáculo a partir de uma plataforma rochosa. Apenas um corrimão os separava do abismo. Clint pensou que, nos Estados Unidos, aquele local seria “selado” com grades e protecções de todo o tipo, devido ao medo de que alguém caísse e depois ainda aparecesse um advogado “bem” intencionado à procura de sacar dinheiro. Mas ali na Islândia, a mentalidade era como nos velhos tempos da América: “Se caíres, é porque és estúpido.”

A história é engraçada mas é a ideia seguinte que interessa para o caso. “Não podemos evitar tudo de acontecer. Mas chegámos a um ponto em que estamos certamente a tentá-lo. Se um carro não tem quatrocentos airbags, então não presta.”

Com a paternidade passa-se o mesmo. Compreensivelmente, queremos eliminar todas as hipóteses de que algo mau aconteça aos nossos filhos. O receio é tanto que instalamos airbags por todo o sítio. Das simples protecções para as esquinas das mesas e tomadas eléctricas, ao aparelho para monitorar a respiração do bebé que dorme. Ficamos obcecados pelo controle absoluto do ambiente físico em que os nossos filhos gravitam.

Mas mais que isso, agora também se procura acolchoar o lado emocional das crianças. Nada de lhe mostrar a faceta triste e sombria da vida, quanto mais pensar ou divulgar a ideia de que ela é... finita. O mundo ocidental lida mal com a perda. Gostamos da ideia propagada pela medicina de que seremos todos eternos. E adoramos pensar que os nossos esforços eliminam o incontrolável. Quando no fundo, só existe uma única certeza a partir do momento em que nascemos.

Qual é? A de que se amanhã este blogue não apresentar um post com piada (suposta e sujeita a confirmação, claro), ainda chamam o Clint para dar cabo de mim ao velho estilo americano.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

JÁ NÃO SOMOS ADULTOS

Muito interessante artigo na The New Yorker sobre a questão da paternidade. A autora ilustra a invenção deste novo “estado da vida” com base no percurso de uma revista norte-americana dedicada ao tema. Jill Lepore esclarece que “a noção de que a paternidade é um estado da vida distinto [dos restantes: adolescência, idade adulta, terceira idade, etc.], partilhado por homens e mulheres, está historicamente na infância”. No passado, ser-se adulto era algo que já incluía a paternidade. “Uma vida normal costumava ser assim: nascido numa família em crescimento, ajudava-se a criar os irmãos, tinha-se os primeiros filhos muito cedo, e morria-se antes do filho mais novo sair de casa.”

Depois as pessoas passaram a ter maior esperança de vida, a ter menos bebés e a adiar o início da própria família. E o conceito de casa familiar comum desagregou-se por causa da autonomia precoce dos filhos. Todas estas mudanças levaram a que “a paternidade se tornasse algo diferente, algo grande, algo planeado”. Por isso, chegada finalmente a hora, após muita ponderação e dúvidas, grande parte dos pais simplesmente não sabe como criar um bebé. Inexperientes e inábeis, ainda por cima podem ver vedado o auxílio dos avós, face à crescente dispersão geográfica familiar.

Arrepia o dado estatístico de que actualmente, nos Estados Unidos, as pessoas que criam crianças são uma minoria.

Dado o contexto, os pais andam todos inseguros à procura do melhor rumo nas questões da paternidade. Esta empatia provoca a proliferação dos blogues-bebés e dos livros escritos por pais e mães . Segundo a síntese de Jill Lepore, as mães procuram o perdão (por não conseguirem ser as super-mamãs que desejam) e os pais procuram o aplauso (por serem papás dedicados como nunca).

Por mim, as mães estão perdoadas. Tal como apontado no artigo, a nossa sociedade não tem dado resposta positiva às especificidades parentais. “A maior parte dos postos de trabalho estão feitos para pessoas que não têm de tomar conta de crianças. (...) Pede-se aos empregadores que acomodem a vida familiar de forma significativa, mas são os empregados que fazem todas as adequações, o que especialmente para as mulheres envolve fingir que, na verdade, não se tem família.”

E é assim que, na nossa sociedade “moderna”, vivemos cada vez mais divididos entre os que pertencem ao estado adulto e os que pertencem ao estado paternal, fruto de incompreensões e intolerâncias.

Quase que dá vontade de regressar à infância, não é?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

OVO DE COLOMBO

O ponto alto deste fim-de-semana foi proporcionado pela visita familiar que trouxe até à Maria a companhia da prima que está quase com cinco anos. Está claro que as duas ainda não brincam juntas pelo que tenho de fazer as honras da casa. E é assim que entre as actividades mais normais – saltos e correrias, ataques de cócegas – dou por mim a entrar numa sala cheia de adultos, imitando um pinto, com os braços arqueados como se fosse um coelhinho (mas porquê? que têm os coelhos a ver com os pintos?!) e os joelhos flectidos. À minha frente, segue uma galinha menor do que eu. Entre os piu, piu, piu e os có-coro-có-có dou-me conta, lentamente, do possível ridículo da situação. Mantenho-me fiel à personagem até ir ao fundo do quarto e voltar, de regresso à nossa capoeira secreta. A meio do caminho, a galinha vira-se para mim e diz:

- Pronto, agora não vamos fazer mais isto!

Fico especado alguns segundos com o corpo dobrado, sem saber bem o que fazer. Pareço um pintainho perdido num mar de dúvidas existenciais até retomar a consciência humana e ir atrás da menina de cinco anos que já não tem nada de galinácea.
De noite, já novamente com a casa mais vazia, ponho-me a pensar na minha incursão avícola vespertina. Concluo que para brincar com crianças às vezes precisamos de perder o medo de parecer ridículos. Rejeitar a compostura séria dos adultos para podermos regressar – nem que seja momentaneamente – ao mundo do faz-de-conta, onde tudo é possível e nada parece... infantil. Ainda assim, felizmente que não me pediram para pôr ovos.