Há ainda um terceiro capítulo associado ao parto da Maria. É o pós-parto prolongado, perpetuado além das nossas vontades e capacidades. Tudo porque não resolvem a situação da AV, que anda num vai e vem entre o hospital e casa. Primeiro é a Natureza que há-de resolver o problema. A senhora dita cuja não aparece. Depois é um medicamento que expelirá os excedentes, com dores tipo parto pelo meio.
É dia 11 de Novembro. A Maria ainda não tem 15 dias e acabou de vir da primeira consulta no pediatra. A mãe desloca-se ao hospital ver onde param as coisas indesejáveis. É hora de jantar quando recebo o telefonema. Precisa de ficar internada para efectuar a intervenção anteriormente adiada. A minha tarefa será menos dolorosa. Cuidar da Maria durante essa noite.
Asseguro-lhe que esteja descansada. A retaguarda está assegurada. Assim que ela desliga deixo o meu medo descontrolar-se durante uns minutos. Esvazio parte da pressão e preparo-me para a noite longa. Eu e a Maria, sozinhos no mundo.
O tempo custa a passar ainda mais do que na noite do parto. Ao princípio, cada minuto são sessenta segundos de incógnita sobre o estado da AV. É preciso controlar a ansiedade e não deixar que se transmita à bebé. A Maria colabora como pode. Para meu alívio, bebe o primeiro biberão preparado pelo pai. Mas passa uma noite agitada. Acorda várias vezes, chora bastante, é difícil acalmá-la. Há demasiadas interrogações na minha cabeça. Será fome? São cólicas? Está irritada? Sente a falta da mãe? É fralda outra vez? Tem sono? Está com frio? Ou será calor? O que faço? Como faço?
Agarro-me à ideia de que cada minuto vencido é mais um minuto próximo da reunião com a AV. Sinto falta de duas mães. A da Maria e a minha. Resgato forças e vontades desconhecidas à memória da minha mãe para cuidar da minha filha. E nas alturas em que sinto as minhas energias a esgotarem-se, é nesses precisos momentos que a Maria sossega. E adormecemos os dois, protegidos por um cordão invisível que parece ter-se enrodilhado à nossa volta. Um cordão formado por amor à distância, emanado de uma mãe recente internada num hospital e uma mãe antiga espalhada num rio.
De madrugada sossego com a notícia que finalmente chega do hospital. Dizem-me que a intervenção correu bem. Mas agora é preciso repouso, para a mãe recuperar da perda de sangue e da anemia diagnosticada. Significado? Mais umas horas de espera. Só a meio da manhã é que a família se unifica outra vez. Passaram mais de 12 horas que pareceram anos. Resistimos contra ventos e marés (e muita gente próxima acrescenta o termo “negligência médica”). Superamos o teste. Já nada mais interessa. Nem queremos pensar em apresentar queixa, gritar alto o acontecido, para que quem de direito entenda a dor – física e emocional – provocada.
As olheiras que vincam os nossos rostos não conseguem iludir o estado de graça em que, apesar de tudo, vivemos. A verdade é que não temos tempo a perder. Por isso, decidimos aplicar todos os preciosos minutos na tarefa de cuidar da Maria. Perdemo-nos no rosto sereno dela enquanto dorme. Aproveitamos para nos enroscarmos na nossa cama, agora com uma alcofa acoplada. E adormecemos com a consciência tranquila. Porque quando acordarmos, sabemos que vamos voltar a chorar. De felicidade.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
sexta-feira, 31 de julho de 2009
CRIANCICE PATENTEADA #5:
CAPACHINHO MENOR DE IDADE


Problema: ainda não consegui ridicularizar o meu filho como deve ser.
Solução: perucas para crianças.
Slogan: “No baby, no cry” [peruca rasta à Bob Marley]
Justificação: “A Baby Toupee tem como missão mostrar que se a parentalidade pode representar uma grande responsabilidade, também pode ser uma fonte de diversão sem fim.”
Efeito colateral: todos e mais alguns que se possa pensar; um dos piores serão os processos judiciais movidos pelos filhos, depois de crescerem e entenderem a humilhação a que foram sujeitos.
Aviso: eu cá por mim, pensava duas vezes em registar a gracinha em vídeo ou fotografia...
quinta-feira, 30 de julho de 2009
NOVE MESES, CINCO OBJECTOS

A Maria cumpre nove meses. Para assinalar a data, aqui estão cinco objectos de que ela gosta especialmente. É provável que a lista pudesse apresentar ligeiras diferenças na semana passado ou na que ainda está por vir. Mas estes objectos não deixariam de ter uma resistência especial.
FRONHA, melhor conhecida pelo Ó-Ó
O ó-ó é o companheiro inseparável da Maria. Seja para dormir na cama ou acalmar no carrinho, ele tem de estar presente. Quando entra em cena, dado para uma das mãos ou colocado (às vezes até atirado) em cima da cara, tem um efeito imediato no serenar do choro. Está umbilicalmente associado ao dedo na boca (a Maria rapidamente rejeitou a chucha para nosso desprazer). Faz lembrar a fralda que o Linus do Charlie Brown carrega para todo o lado.
CARRINHO DE BEBÉ
É um objecto todo-o-terreno. Não só serve para os passeios no jardim e afins como é o local preferido para o descanso após o desgaste dos dias passados na escola. Actualmente, a Maria já dá o jeitinho necessário aos braços para colocar ou retirar os cintos. E encontrou utilidade no varão de segurança para pousar os pés ou as pernas. Gosta de adormecer numa espécie de ninho, com a capota posta. O papá especializou-se em empurrar o carrinho com o pé, enquanto sentado no sofá a ver séries ou filmes.
URSINHA DADA
Da dúzia de bonecos e brinquedos à disposição da Maria, a ursinha Dada acabou por ganhar um papel de relevância. É a companheira ideal para os momentos de contemplação no carrinho, seja de manhã enquanto o papá ou a mamã se aprontam, seja de tarde enquanto espera pela chegada da sesta pré-banho. Conversam bastante as duas, provavelmente sobre as parvoíces parentais. Ao contrário do que acontece com outros bonecos, a ursinha é quase sempre tratada com gentileza.
COPINHOS COLORIDOS
Proveniente da prima de Peniche, o conjunto de copinhos coloridos que se encaixam como matrioscas constitui a principal diversão à hora da refeição. A Maria aborda o tema através das variações bater-com-o-copinho-no-tampo-da-cadeirinha, bater-com-um-copinho-no-outro, e a clássica deitar-o-copinho-para-o-chão. No banho, a presença dos copos também é imprescindível, sendo o molhar-a-mamã uma das actividades favoritas. Recentemente adquirimos outro conjunto de copinhos, com rebordos “mastigáveis”, que vieram acrescentar uma nova brincadeira: a construção pelos pais de um arranha-céus de copinhos que a Maria “King Kong” se apresta a derrubar. Tenho a impressão que depois vai ser mais difícil ensiná-la a construir...
FLOR
É um objecto que acompanha a Maria desde o nascimento e que continua a ter utilidade. Escondida no cestinho que contém as fraldas, os cremes, os soros e restantes et cetera, a flor é elemento apaziguador durante a tarefa do vestir ou trocar fralda. A ocasião é um suplício para a Maria que se irrita por ter de estar deitada. E, se bem que a quantidade de tempo de distracção proporcionado varie de dia para dia, o malmequer macio e sorridente continua a ser o primeiro truque da lista. Por vezes, desde que não haja engano e coloquemos a tocar a música dos parabéns com que a Maria sempre embirrou, dá conta do recado sozinho. Doutro modo, é preciso passar à forma de distracção seguinte que tanto pode ser a escova do cabelo, o babete, as peças de roupa a vestir, o sapo voador, o polícia sinaleiro, o pai dançarino... ufa... ó filha, voltamos à flor que é tão bonitinha?
terça-feira, 28 de julho de 2009
CANTILENAS DE DORMIR

Nos primeiros meses da Maria, houve duas cantilenas que utilizámos com abundância para a serenar e adormecer. Diga-se que umas vezes com mais sucesso do que outras. Eu recorri a uma recordação de infância, com as devidas adaptações. A minha avó cantava-me assim:
Ó Niquinho vai-te embora
Sai de cima do telhado
Deixa o Paulinho fazer
Um soninho descansado
Niquinho era a abreviatura do meu gato preto Niki. Como agora não há felinos cá em casa – à excepção do miar fingido da mãe e do pai – a nova versão recorre ao generalista gatinho. De vez em quando, talvez por um saudosismo subconsciente, saia-me um “Vai para cima do telhado”, o que significaria que o gatinho andava cá por casa. No remix 2009 também não há lugar ao diminutivo no nome. Já me basta a luta acesa que tenho contra o “coitadinha” que de vez em quando surge. Coitadinha porquê? Curiosamente, descobri depois um CD em que a Sara Tavares canta “Vai-te embora ó papão / Do alto desse telhado / Deixa dormir a Matita / Um soninho descansado”.
A outra canção a que recorremos veio da tia Tita. Nunca a conseguimos decorar de forma correcta e parece-me que a Maria acabou por ouvir, pelo menos por parte do pai, uma versão alternativa:
Um peixinho, vermelhinho
Nada, dança, no laguinho
Sobe e desce, sem parar
Para ver alguém chegar
Não tem medo, o peixinho
Porque sabe o seu segredo
Que no fundo do laguinho
Ele é sempre um peixinho
Que no fundo do laguinho
Ele é sempre um peixinho
Da experiência acumulada, acabei por utilizar o Peixinho para acalmar e o Gatinho para adormecer. Mesmo com o risco de um comer o outro, confesso que houve vezes em que as intercalei. Mas mesmo hoje em dia, não há nada como o Breathless do Nick Cave para acabar com o choro e meter um sorriso na Maria. E pergunto-me se isso não terá a ver com termos assistido ao concerto do homem com a bebé ainda na barriga da mãe.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
ENTRE O CÉU E O PURGATÓRIO
E depois da saída da Maria foi só felicidade. Ou quase. As horas do pós-parto tiveram tudo para se tornarem traumáticas. Porque há uma placenta teimosa que se fragmenta e obriga a mãe a continuar amarrada a uma cama, com ocitocina para expelir os restos indesejados. Porque se acumulam dores e cansaço extremos à necessidade de começar a cuidar de uma bebé. Porque acrescem as dificuldades da alimentação e a Maria só consegue pegar inconsistentemente numa mama. Porque a visão da mãe torna-se turva, desfocada, duplicada e nota-se uma fraqueza geral de viver apenas à custa de soro desde há 20 horas seguidas.
Surge uma sofreguidão de ver tudo resolvido. Sinto-me impotente para ajudar a aliviar o sofrimento alheio. Depois de um esforço tão grande, não era esta a medalha de desconsolo que a Andreia merecia. As intervenções médicas posteriores provocam dores maiores do que as do parto. Novamente posto do lado de fora do quarto, desta vez não posso sequer estar perto para apertar uma mão e relembrar para que respire com calma. Resta-me regressar para ao pé de mãe e filha após uma sessão de “tratamento”. Tento serená-las. Ao fim de algum tempo, a Maria acalma o choro e adormece ao meu colo pela primeira vez. E a Andreia também consegue, finalmente, dormitar um pouco. Coloco a bebé no berço e deixo-me cair na poltrona. Entre o cansaço rasga-se um sorriso à força. Fecho as pálpebras, imerso na gloriosa sensação de ter auxiliado as minhas meninas a adormecer. Há raras alturas em que nos sentimos realmente úteis.
Quando acordo nada mudou. A Andreia permanece na sala do recobro, a Maria continua a ter dificuldade de mamar. Espera-se ainda por uma cama vaga na ala de internamento. Regresso a casa quase 24 horas depois de ter saído. No hospital, a Andreia suporta sozinha uma noite sofrida, com mudanças de cama, dificuldades em alimentar a Maria, um médico muito conceituado que utiliza um humor desfasado.
- Então quantas pessoas está a ver? – pergunta de chofre logo após entrar na sala.
- Desculpe? – responde uma mãe atarantada por uma montanha-russa de emoções e fragilizada pelos eventos subsequentes ao parto.
- Sim, quantas pessoas está a ver? – repete o médico.
- Não estou a perceber, senhor doutor.
- Então não é a senhora que se queixa de ver a dobrar?
Na noite seguinte, será o mesmo médico a achar indevida a intervenção médica programada. Estava a escassos minutos de acabar o turno. Em jejum, a Andreia regressa para junto da Maria. O médico regressa a casa ou, quiçá, às consultas de madrugada no consultório privado. De manhã, colegas torcem o nariz à não realização da curetagem e levam a sério a questão óptica, enviando a Andreia para testes noutro hospital. Nesse princípio de tarde fico pela primeira vez “sozinho” com a Maria, num quarto de hospital público com vista para o Cristo Rei. Ela tem dois dias de vida.
Despistado e minorado o problema da visão, deixada a questão "placentária" ao cuidado da natureza (sem curetagem ou medicamento, portanto), chegará tempo de finalmente rumarmos os três a casa. Na nossa primeira semana de parentalidade, entendemos o que é um apoio solidário de avó. Agradecemos com sorrisos sempre que possível. E com o colocar-lhe no colo uma bebé que nos ensina, verdadeiramente, o que é amar.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
CRIANCICE PATENTEADA #4:
BIBERÃO EXPRESSO

Problema: Incapacidade crónica de preparar um biberão de leite.
Solução: máquina de Leite Expresso
Curiosidade: a máquina dispensa e mistura a quantidade desejada de leite em pó e água, à temperatura pretendida, despejando o resultado para o biberão; também ferve água e arrefece até uma temperatura bebível e esteriliza biberões.
Lacuna: falta o controle remoto, já agora.
Efeito colateral: Incapacidade crónica de preparar um biberão de leite.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
NAMORICO PRECOCE
Eu sabia que devia ter logo posto cobro à situação. Agora estou tramado. Saio com a Maria de manhã e pronto, está a tenda armada. A porteira com o João ao colo a dizer para as vizinhas que passam (o átrio de entrada do nosso prédio é uma espécie de ponto de encontro): “Ai, haviam de os ver ontem a bater palminhas um para o outro! Bate lá palminhas João, bate lá!”. O miúdo hoje estava com a telha e não bateu palmas. Aproveitei logo para olhar para a Maria ao estilo “estás a ver como é que ele é, filha?”.
O pior é que uma vizinha de prédio anexo já se aprestava a ditar sentenças: “Então João já tens namorada? Escolheste bem!”. Urge rectificar a senhora. Um: não há namoro nenhum (amanhã levo a Maria vendada para isto tudo acalmar). Dois: tenho cá a impressão que a Maria é que faz as escolhas.
No meio disto tudo salvam-se os pais do rapaz, sempre simpáticos e nada incentivadores deste tipo de pré-arranjos matrimoniais. No fundo, acho que eles já entenderam que se calhar arranjam para o João melhor... sogro.
O pior é que uma vizinha de prédio anexo já se aprestava a ditar sentenças: “Então João já tens namorada? Escolheste bem!”. Urge rectificar a senhora. Um: não há namoro nenhum (amanhã levo a Maria vendada para isto tudo acalmar). Dois: tenho cá a impressão que a Maria é que faz as escolhas.
No meio disto tudo salvam-se os pais do rapaz, sempre simpáticos e nada incentivadores deste tipo de pré-arranjos matrimoniais. No fundo, acho que eles já entenderam que se calhar arranjam para o João melhor... sogro.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
RECEITA DE GELADO AMBRÓSIO
À cabeça das provações a suportar pelo homem durante uma gravidez, estão os famosos caprichos de "apetece-me algo". A frase tem o condão de transformar um banal futuro papá num Ambrósio explorador à procura do gelado inexistente. As grávidas, por estarem no seu estado de excepção, têm a impressão de que as arcas congeladoras têm um compartimento secreto com os gelados que pretendem, por mais mirabolantes que sejam. Devo ressalvar que tive sorte neste capítulo e as parcas solicitações que recebi foram todas fáceis de cumprir. Mas sei de quem não tenha tanta sorte.
Deixo por isso aqui um conselho prático para os futuros papás. Quando vos exigirem de madrugada um “corneto de manga, morango e chocolate”, não se ponham à procura dele em todas lojas de gasolineiras da zona. Vão sempre ser alvo da troça do pessoal que está na caixa, demasiado habituado a ouvir os pedidos mais absurdos de maridos desesperados. Em vez de saírem numa correria desenfreada, tentem fazer ver que o gelado requisitado não existe e peçam uma alternativa. Preparem-se no entanto para uma possível insistência por parte da grávida: "Mas é esse que me apetece: morango, maaangaaaa e CHO-CO-LA-TE!!!". Nestes casos extremos, respirem fundo e tenham calma. Também nós temos um manual de sobrevivência. Aqui fica a receita.
GELADO AMBRÓSIO
1 - Comprar caixas separadas de gelado com os sabores pretendidos pela grávida;
2 - Comprar um gelado de cone;
3 - Retirar o recheio do gelado de cone (comam o recheio para repor os níveis energéticos);
4 - Inserir bolas dos gelados solicitados no cone vazio;
5 - Se forem perfeccionistas e os níveis de irritabilidade da mãe estiverem baixos, colar um papel sobre o rótulo original a dizer "Gelado de morango, maaaaaaaaaaaaaanga e CHO-CO-LA-TE!!!".
6 – Servir imediatamente e com um sorriso (não demasiado irónico para não levarem com o gelado na cara).
terça-feira, 21 de julho de 2009
CUIDADINHO COM AS CONFIANÇAS...
Acho que já devo ter referido que a porteira do nosso prédio faz questão de acasalar a Maria com o miúdo do nono andar. Eu resisto todos os dias ao compromisso (sempre que desço com a Maria para a levar ao berçário, o miúdo está lá com a porteira que faz de baby-sitter) e digo que ela é que há-de determinar e que pretendentes não lhe faltam. Quando eu quiser acabar de vez com o assunto, pergunto à senhora como é que ela sabe que a Maria não vai ser lésbica? Mas nesse dia, não só acabo com o assunto como certamente também com toda a simpatia dela, pelo que ainda não recorri a esta estratégia desesperada.
Hoje a cena repetiu-se. Saímos do elevador e lá está ele ao colo da porteira. O puto já cumpriu um ano e tem cara de reguila. Hoje está com cara de amuo. Exponho a Maria aos “Olha a princesa! Que linda!” acompanhados dos “Olha aqui o João!” e ele comporta-se com dignidade, sem esboçar um sorriso. De repente, o miúdo arreganha a boca, mostra a dentição avançada, sorri para a Maria e começa a bater palmas. A porteira dá pulos de alegria mas eu fico impávido. Demora dois segundos até a Maria retribuir as palminhas. E ficam os dois nisto durante uns segundos. Tento escapulir-me enquanto a senhora com o miúdo ao colo recupera do orgasmo de felicidade pelo entendimento entre bebés acabado de testemunhar.
Lá fora, aviso a Maria para ter cuidado com estes gabirus mais velhos. E amanhã acho que vou agarrar nela de forma a que não consiga bater palminhas e encorajar os avanços do João. É que se isto prossegue, para a semana a porteira já marcou a data do casamento.
Hoje a cena repetiu-se. Saímos do elevador e lá está ele ao colo da porteira. O puto já cumpriu um ano e tem cara de reguila. Hoje está com cara de amuo. Exponho a Maria aos “Olha a princesa! Que linda!” acompanhados dos “Olha aqui o João!” e ele comporta-se com dignidade, sem esboçar um sorriso. De repente, o miúdo arreganha a boca, mostra a dentição avançada, sorri para a Maria e começa a bater palmas. A porteira dá pulos de alegria mas eu fico impávido. Demora dois segundos até a Maria retribuir as palminhas. E ficam os dois nisto durante uns segundos. Tento escapulir-me enquanto a senhora com o miúdo ao colo recupera do orgasmo de felicidade pelo entendimento entre bebés acabado de testemunhar.
Lá fora, aviso a Maria para ter cuidado com estes gabirus mais velhos. E amanhã acho que vou agarrar nela de forma a que não consiga bater palminhas e encorajar os avanços do João. É que se isto prossegue, para a semana a porteira já marcou a data do casamento.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
PARTO FELICIDADE

O jogo da Playstation está parado mas subsiste a dúvida sobre se devemos ir já para o hospital. Aparentemente a bolsa amniótica rompeu, mas as contracções ainda não se faziam sentir. Telefonamos para uma linha de apoio onde a enfermeira de serviço (a que nos ministrara o curso de preparação para o parto) aconselha a rumarmos ao hospital. É preciso monitorar possíveis infecções. Actuamos sem stresse. Há tempo para a grávida tomar um duche rápido, colocar desodorizante (afinal de contas num parto deve suar-se bastante), ver se o esquentador fica desligado.
Ao sair e fechar a porta de casa estávamos a dar entrada num mundo diferente, sem nos apercebermos bem da dimensão do passo. A admissão nas urgências do São Francisco Xavier é faseada. Primeiro a mãe, vá-se lá compreender porquê. O pai espera cá fora, ainda acompanhado pelo amigo-motorista-companheiro de PES. Digo-lhe que estou bem, que vá descansar para casa. O dia seguinte será de trabalho, para quem não for pai nessa noite.
Passados minutos chamam a AV pelo altifalante. Intrigado, meto a cabeça entre as portas vai-e-vem da urgência e espreito. Vejo um homem vestido de bata azul e uma mulher de bata amarela.
- Chamaram por uma Andreia? – pergunto com um ar meio surpreso.
- Ela está aí fora? – inquere o enfermeiro.
- Er... não... entrou para aqui faz 15 minutos...
Mau, querem ver que eles perderam uma futura mamã? Fico ali especado à espera de que apareça o Sherlock Holmes para solucionar o caso mas afinal não é preciso. Lá descobrem que a malvada tinha ido à casa-de-banho. Não se pode confiar nas grávidas, estão sempre a mudar de sítio.
Finalmente permitem-me entrar. Dão-me coordenadas até ao quarto da AV mas bem que poderiam entregar um GPS que seria mais fácil. O primeiro percurso, já se sabe, é sempre o mais difícil e longo. Mais tarde, ainda hei-de percorrer vezes sem conta este mesmo trajecto quase de olhos fechados.
A AV está deitada na marquesa com o soro a invadir-lhe as veias. Reparo no espaço amplo e desafogado, nas luzes suaves, na poltrona reclinável à espera do pai. Penso que é um quarto mais simpático do que muitos daqueles em que estivemos durante a nossa volta ao mundo. E concluo que é um excelente sítio para dar a volta à nossa vida.
As contracções estão espaçadas e os dedos de dilatação ainda distantes do necessário. Temos o nosso plano de parto na ponta da língua. A AV vai comunicando com o enfermeiro que volta e meia aparece para controlar os sinais do CTG. Os minutos da madrugada esticam e a certa altura é preciso permitir a introdução da ocitocina para acelerar o processo. As dores aumentam e é difícil dormitar. Acedemos a que nos seja explicado o procedimento e consequências da epidural. Percebemos pela primeira vez que haverá controlo dos membros inferiores durante o parto. Saio para que efectuem a técnica.
A epidural demora a fazer efeito. Passam 45 minutos e a dor permanece. A anestesiologista de serviço está ocupada noutro caso, é necessário aguardarmos que regresse para rectificar a dosagem. Apesar do esforço heróico da AV, as dores intensificam-se e carregamos timidamente no botão para chamar alguém. Surge a enfermeira Felicidade. Assenta-lhe bem o nome. É a ternura em carne e osso. Analisa a AV e percebe que a dilatação foi mais rápida do que o esperado. Está tudo pronto. Faz-lhe uma festa na testa enquanto lhe diz coisas carinhosas. Apetece-me abraçar a senhora, naquele momento irrepetível. Ela chama as colegas que nos vão colocar a Maria nos braços.
Calha-nos a versão feminina e hospitalar da A-Team. As três enfermeiras perfumam o quarto de boa disposição. Pergunto o porquê de se chamarem Equipa A? Dizem-me que é por serem a equipa do Amor, Alegria e Amizade. E ali leram a sina da Maria, mesmo antes de ela saltar cá para fora. Começou por parecer preguiçosa a moça. A AV recebia incentivos e elogios de todo o lado – “Assim mesmo! Força! Lá em baixo, isso! Boa!” – mas nada de Maria cá fora. O tempo passa e a Equipa A resolve chamar o médico de serviço. Surge um homem de cabelo encaracolado e ar bonacheirão, acompanhado de mais um obstetra e dois jovens internos. Toma conta da ocorrência e pede para o pai sair por um momento. Do lado de fora, porta fechada, os segundos eternizam-se. Envelheci séculos até me mandarem reentrar.
Rejuvenesço assim que vejo as mãos do obstetra-parideiro a retirarem a Maria para este mundo exterior. O sangue, desta vez, não me incomoda. Sou novamente uma criança quando a ouço chorar pela primeira vez. E quase deixo de ter existência física quando pousam a Maria ao colo da mãe. Apetece-me abraçar toda a gente mas já só consigo fixar, entre uma ou outra lágrima, uns olhinhos pequeninos fechados junto ao peito de uma mãe de olhos exaustos mas imensamente felizes.
O médico de cabelos encaracolados divide o tempo entre assegurar-se que tanto mãe como bebé estão bem. Exibe um sorriso glorioso por ter contribuído para trazer mais uma vida, enquanto o colega cose a ex-grávida. Explica todos os quês e porquês. A Maria não saia por ter o cordão em volta do pescoço. Houve necessidade de ventosa e “impunha-se” realizar cortes para auxiliar a saída. E já fora do centro nevrálgico das urgências, o médico ainda gasta um pouco do precioso tempo para dar explicações ao tio da Maria e dar-lhe os parabéns pelo óptimo comportamento dos pais.
No quarto, o espaço amplo concentra-se no corpo de um ser com menos de meio metro, nascido às 12 horas e 25 minutos. E somos três que lá cabemos, num abraço comum que contém em simultâneo todas as palavras belas que existem e as que estão por ser inventadas.
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