segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
DESLIGAR A TOMADA
Eu juro que isso só aconteceu uma vez. E foi há cinco ou seis meses. O pior é que não este amplificador acústico não tem ficha para desligar da tomada. uffff
sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
PALAVRAS (CERTAS) PARA QUÊ?
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO
Ainda assim, emergiu um dogma deste "ano" bloguista. A Maria, claro está, intocável no posto de papel principal que agora assume em, pelo menos, duas vidas. A festa comemorativa teve muita gente, com destaque para a gloriosa presença de três bisavós (ainda há uma quarta que não pôde vir). É obra para gente ainda tão pequena. Mesmo se tentasse não conseguiria descrever como a Maria ensinou os pais o que é uma anfitriã. Bem-disposta do primeiro ao último minuto. Sem recuos, dúvidas ou limitações.
Poderia ser uma lição para o papá. Mas é mais um motivo de reflexão e questionamento. Não me parece por isso existir melhor altura (e post) do que este para iniciar uma pausa. Que, como se diz na descrição deste 1pai100palavras, espera-se limitado às palavras escritas.
UM ANO, CINCO MOMENTOS
1 - Quando a Maria encosta a cabeça no meu ombro e ali fica segundos que parecem horas.
2 - Quando a Maria, antes de adormecer deitada no carrinho, se dedica a contemplar-me.
3 - Quando a Maria espeta o indicador para estabelecer contacto (ao estilo do "E.T. - O Extra-terrestre").
4 - Quando a Maria estica os braços a pedir colo.
5 - Quando a Maria passeia no carrinho e olha para trás, a "pedir-me" um beijo na testa.
Paro a marcha do carrinho, abro um sorriso, debruço-me sobre ela, beijo-a demoradamente na testa. O tempo suspende-se. Ela sorri e volta a olhar em frente para a paisagem que a espera. Os segundos voltam a passar e o caminho volta a ser caminho.
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
MOMENTOS EM FAMÍLIA
Numa entrevista já antiga do Pedro Bidarra, director criativo da BBDO, ao jornal i, os conceitos da publicidade misturam-se com as vivências familiares. E, de repente, pode soar um sinal de alerta para passarmos (ainda) menos tempo à frente do televisor. Ou em frente do televisor, quem sabe, a tentar estabelecer pontes. Seja como for, por enquanto ainda resistimos a instalar uma televisão na cozinha. Na hora das refeições ouve-se música. Ou o silêncio entre as palavras.
"Mesmo numa casa onde viva um homem, uma mulher e uma criança, é difícil aquela família partilhar as mesmas coisas. Estou a falar de experiências de comunicação e de entretenimento. É muito difícil que uma filha partilhe a mesma coisa que a mãe ou o pai. Com tantas referências, a pessoa tende a criar conteúdos e assuntos que viajam em diferentes meios. Depois há uma televisão em cada quarto, há Internet, outros estímulos. Cada um está fechado no seu mundo. Felizmente, ainda há pontos de contacto, mas é preciso procurá-los."
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
PRIMEIRA PALAVRA
Ainda assim, há discussões sobre a grafia, qual acordo ortográfico português. Estará o ponto de exclamação a mais? Provavelmente sim. E o som emitido parece-se mais com "olháaaa...". Mas sobre o intuito, disso não existem dúvidas. "Olhá" para a mãe, para o pai, para os quadros do Carlos Gardel, Corto Maltese e gatinhos, "olhás" repetidos consecutivamente para obter resposta semelhante.
Veio em boa altura a aprendizagem. A ver se ela a consegue pôr em prática na recepção aos convidados da festa comemorativa do ano um. O pai ainda vai tentar ensinar em tempo útil outra palavrinha que pode dar jeito: "Adeus!"
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
BÉBÉ BIBLIOTECÁRIA
Passo a passo, os animais começam a ser reconhecidos. “Onde está o polvo, filha?” Às vezes aponta, outras vezes não. “Está ali”, ajudam os pais quando necessário. No outro dia, no livro da quinta, pareceu-me que ela reconheceu mais um. “Onde está o burrinho, filha?” E ela logo, tão linda, de dedo espetado a indicar o papá…
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
CRIANCICE PATENTEADA #11:
NEM QUEBRAR NEM TORCER
(O COTOVELO)

Problema: Preguicite aguda dos pais; ancilose do cotovelo
Solução: colher reservatório + dispensadora de comida
Explicação: apertar a parte mole da colher provoca a saída de uma dose de comida para a parte côncava.
Efeito colateral: Crianças impossibilitadas de se exprimirem artisticamente pela colocação das mãos no prato da comida.
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
ANOITECER DE VERÃO OUTONAL
(UM CONTO EM QUATRO ACTOS)

(acto I)
Rua fora, os néons das lojas a contestar a luz dos candeeiros públicos, a caminho de casa com um frango assado no saco. No passeio à minha frente, uma avó e duas crianças. O miúdo, mais novo que a irmã, pergunta:
- Avó, em casa posso calçar os ténis novos?
O consentimento é quase inaudível mas a réplica da menina não.
- Não percebo porque é que arranjas sempre coisas novas para ele e para mim não.
- Porque TU já tens dois ténis! E eu só tenho um! – adianta-se o irmão.
A avó permanece calada. A irmã, sempre serena, aplaca o ciúme.
- São giros? – condescende a irmã.
- Buéda fixes!
- De que cor são?
- Às cores – responde ele.
- Que cores?
- São muitas!
- Mas quais?
- Não me lembro!
Estou em plena ultrapassagem ao trio da avó calada, da menina calma e do miúdo com ténis muita fixes dos quais já não se lembra. Após um breve silêncio, regressam as vozes.
- Azul?! – insiste a irmã.
- Já te disse que não me lembro!!!
Ultrapassei-os e começo a afastar-me.
- Verde?
- Não sejas chata! Já disse que não sei!
(acto II)
Deixo de ouvir. Dois quarteirões à frente, uma mãe empurra com as duas mãos um carrinho de criança na minha direcção. Não é a primeira vez que a encontro. Tem sempre um cigarro preso entre os dedos, a fumegar para onde o vento sopra. Às vezes é para cima da criança, invariavelmente calada. Cruzamo-nos ao estilo comboio-bala.
(acto III)
Mais à frente, um homem segura uma caixa junto ao carro. Junto à porta traseira, uma mãe instala a filha na cadeirinha interior.
- VÁ LÁ QUE JÁ SÃO SETE E MEIA! ENTRAAAA!
A menina inicia um choro contínuo. A mãe persegue na irritação. O pai segura a caixa. O choro soa como uma sirene de bombeiros que se ofusca lentamente à medida que me afasto e galgo o resto dos metros que faltam até casa. O frango ainda vai quente.
(acto IV)
A Maria acabara de comer. Recebe-me com um sorriso enorme. Quatro dentes brilham, dois em baixo, dois em cima. Deixa os pais comerem o frango enquanto explora o chão da cozinha atrás de uma bola. Bate com a cabeça num pé da mesa. E começa um choro que parece uma sirene de bombeiros. É resultado de sono, concluímos, falta da sempre necessária sesta que não fizera. Todos os truques de adormecer ou acalmar falham. A sirene não termina. Até uma mãe salvadora lembrar-se de cheirar uma fralda. Cheia e a fazer arder um rabinho assado. O pano desce. A peça de verão outonal terminou. Os críticos que lhe façam os julgamentos morais.
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
PUZZLE GENÉTICO
Quase acabadinho de nascer, com cerca de meio metro, olhos fechados, corpo e expressão frágil, e já cada bebé começa logo a ser retalhado pelas famílias do pai e da mãe. Chegam uns e sentenciam que “tem os olhos da mãe”. Vêm outros e reconhecem logo “o queixo e as orelhas do pai”. Rapidamente, todas as partes do bebé vão sendo tomadas, uma a uma, pelas duas facções beligerantes. Parece o jogo do Risco, com árduas batalhas pelo território do recém-chegado. “A cara redonda da mãe? Ai não, nem pensar, ela é toda pai!”. “O quê? O nariz do pai? Longe disso, felizmente, coitadinha da menina! É nariz cem por cento mamã!”
Assistimos calados a estas movimentações no tabuleiro de pertenças deste e daquele lado. Quando nos perguntavam a opinião, dizíamos que a Maria era parecida com… a Maria. Claro que na intimidade lá fomos reconhecendo esta ou aquela feição, esta ou aquela expressão, mas sem dar demasiada importância ao puzzle genético. Ainda assim, confesso que resisti algum tempo à possibilidade, entretanto confirmada, de a Maria ter o cabelo aloirado. Ou melhor, castanho-claro como o papá diz.
Melhor ainda fez uma bisavó paterna. Mal viu a Maria, apressou-se a proclamar a sentença: “Ah, ela não tem nada de pai.” E lá encontrou semelhanças com vários elementos da parte familiar maternal. Subitamente com dúvidas sobre a efectiva paternidade da criança, ainda perguntei “Ó avó, mas não há nem uma coisinha parecida comigo?”. Mais valia ter estado calado, perante a resposta categórica: “Ai, é que nada mesmo. NADA.” Suspiro. Até neste Risco-Bebé há alianças que surgem do sítio mais inesperado.
